Propaganda do Governo <br>e a falsa criação de emprego

José Alberto Lourenço
Com a aproximação das eleições legislativas assiste-se da parte do Governo e dos comentadores ao seu serviço à tentativa de branquear muitas das malfeitorias levadas a cabo nos últimos quatro anos, tarefa difícil mas de que eles não desistem.
Tarefa difícil já que estamos perante o Governo que mais longe foi nos ataques aos direitos dos trabalhadores, que impôs os maiores cortes nos salários e pensões e a maior carga fiscal sobre os trabalhadores, pensionistas e reformados e suas famílias, o Governo que conduziu o nosso País ao seu maior período recessivo, à maior destruição de emprego e ao maior surto emigratório de sempre – só nos últimos quatro anos, meio milhão de portugueses abandonaram o País.
Aquilo a que vimos assistindo nas últimas semanas com as intervenções públicas de Passos Coelho e Mota Soares e com os comentários de João Duque – o tal comentador que um ano antes do escândalo do BES atribuía em nome do ISEG o doutoramento honoris causa a Ricardo Salgado e fazia rasgadíssimos elogios ao homem e à sua obra como empresário –, sobre a evolução do emprego em Portugal, merece ir para os anais da história económica do nosso País como o exemplo supremo da manipulação das estatísticas em Portugal. Razão tem Pedro Nogueira Ramos quando, num livro escrito há dois anos, sobre a utilização muitas vezes feita das estatísticas, o titula de «Torturem os Números que eles Confessam».
É exactamente a isso que estamos a assistir a propósito da evolução do emprego em Portugal nos últimos anos.
Ninguém tem dúvidas sobre a enorme destruição de empregos em Portugal a que vimos assistindo. Não existe neste país, bairro e rua de vila ou cidade que não mostre isso mesmo, com os milhares de estabelecimentos comerciais que encerraram, com os milhares de fábricas que fecharam portas, com as enormes filas que se formam todos os dias antes da hora de abertura dos Centros de Emprego e dos postos de atendimento da Segurança Social.
Mas este Governo e os comentadores ao seu serviço tinham de encontrar uma forma de demonstrar o contrário, por muito absurdo que isso pudesse parecer. E a fórmula mágica foi descoberta! Como nos primeiros dezoito meses este Governo com as suas políticas destruiu o impressionante número de 412 300 empregos, nada melhor do que ignorar essa destruição de emprego, tanto mais que já passaram quase trinta meses e os portugueses parecem ter memória curta, e fazer as contas ao emprego a partir desse ponto mais baixo do emprego em Portugal, que representou o início do ano de 2013.
Desta forma embora ao fim de 47 meses de Governo de direita PSD/CDS tenham sido destruídos 259 200 empregos, o que não se reflete no nível de desemprego porque a população activa (população empregada+população desempregada) viu o seu número cair neste período em 243 600 indivíduos, o Governo pode sempre afirmar que criou entre Janeiro de 2013 e Abril passado 175 000 empregos; e mais, como o seu ponto de partida é o ponto mais baixo do emprego em Portugal, poderá durante os próximos meses falar em criação de emprego mesmo que a evolução do emprego seja menos favorável.
Estamos sem dúvida perante a mais escandalosa manipulação da leitura dos dados estatísticos do emprego em Portugal de que há memória.
A destruição do emprego a que vimos assistindo por parte deste Governo atingiu patamares nunca antes vistos, mas com esta manipulação pretende levar os portugueses a concluir o seu contrário.
No entanto «a mentira tem sempre a perna curta» e se olharmos para evolução do emprego desde Janeiro de 2013, como quer o Governo, verificamos que afinal dos tais 175 mil empregos que diz terem sido criados desde aquele mês até Abril de 2015, 80 mil correspondem ao acréscimo do número de trabalhadores em estágios e cursos de formação, 64 mil são trabalhadores com contratos a termo e 21 mil trabalhadores a tempo parcial.
Ao mesmo tempo que o pouco emprego criado desde Janeiro de 2103 era precário, parcial, de salários muito baixos e muito dele resultava de falsos estágios e cursos de formação, mais de 262 mil portugueses nestes dois últimos anos saíam do País, procurando lá fora o emprego que aqui lhes era negado.
Se é verdade que o Governo vai procurar repetir até à exaustão a mentira em torno da criação de emprego, procurando repetindo-a confundir os portugueses e levar com que alguns possam mesmo acreditar nela, também é verdade que o nível de destruição de emprego foi tal e o nível de desemprego real atinge hoje tais níveis, que dificilmente permitem que aquela mentira se transforme numa verdade inquestionável.



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